jonallenart:

Bark Art 

Pen & Ink on Hemlock bark, 2010


Do por que de ouvir música com o coração.

  Não, você não é para mim em termos de musicalidade um desânimo, se é que foi essa a palavra que usou. Já faz um tempo que deixei de exigir que as pessoas sejam figurantes de meu raciocínio e sei com clareza que nada posso esperar de ninguém, o que vier no mesmo fluxo, é lucro. É claro que compartilhar sabores é ótimo, mas entender o por que do outro lado é tão interessante quanto.

  Então a pergunta ideal para esse momento é: -

-O que te desagrada na música? Sou daquelas crianças que não aceitam por que sim como resposta, sempre acho que a frente de uma opinião, deve existir um motivo. Então gostaria de entender o por que de você sentir irritação com a música, de não se importar com as letras e todo o restante de seu ponto de vista.

  Enquanto pensa em sua resposta, tomarei a liberdade para te dizer o que me encanta nesse universo. E para isso precisarei de muitas linhas. Pois falar de um dos maiores amores é se perder em vocabulário, hora por limitação, hora por devaneio. Mas prometo ser preciso e quase científico para deixar claro o por que de mim.

  

   É possível que a música tenha surgido antes da linguagem, junto as batidas tribais veio a melodia, a fogueira forte, o dia da caça, o ritmo frenético. A melodia é idioma universal, você sabe do que a música fala sem que para isso sejam necessárias palavras, e tão variada quanto a raça do ser humano, são suas vertentes melódicas. Veja só no Brasil mesmo, quantos e quantos e quantos estilos e ritmos, agora pense num pequeno país asiático, pense na Russia, pense na India, cada qual com sua profundidade quase infinita de possibilidades musicais.

   O que me encanta na música é em especial a perfeição com que esse povo consegue juntar alguns poucos acordes de violão com letras assustadoramente sinceras. E para não sair muito do nosso porto seguro falemos então dessas composições básicas feitas por gente que nem se entendeu direito a ponto de se matar, como o pobre Raulzito. Apesar de alcoólatra, perdido em si e com vários estigmas cronicificados em sua consciência, compôs em uma simplíssima progressão de Lá, Sol e Ré uma canção mantra de gerações, que com poucos minutos pode causar um belo dum banho energético do topo da cabeça até os calcanhares com apenas essas frases:

 

“Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
 
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante"
 

Calculou?

   Se quer um exemplo ainda mais prático pega o Renato Russo, de forma extremamente fácil, quase um Paulo Coelho musical, ele colou frases que todo mundo precisava ouvir em musicas cativantes.

-É precisa amar as pessoas como se não houve o amanhã, pois se você parar pra pensar, na verdade não há. Sou uma gota d’água, sou um grão de areia”

   Só com essa frase ele já teve sua missão cumprida.

 

   Mas falando assim faz parecer que a música é banal e medíocre e que não tem nada de profundo nesse tipo de canção. Então falemos por um minuto de uma das músicas mais fodas ja compostas, Construção do mestre Buarque…
   Chico fez algo quase incalculável em uma de suas mais famosas canções. Além duma critica social quase devastadora e power, ele faz a canção em versos dodecassílabos, sempre terminando numa palavra proparoxítona. São a base de toda a música, onde ele muda nos versos seguintes apenas a ultima palavra de cada verso. É uma maestria de bom uso do português que você não verá mais na música brasileira infelizmente. E ainda conclui com uma metralhada crítica impagável que só não causa arrepio no leigo cego de amor às realidades paralelas:

 

”- Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir,

Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir

Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,

Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir

E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir

E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,

Deus lhe pague


Que tal agora re-ouvir a música com essa noção?

 

Só isso já seria o suficiente para dizer o por que da música existir. Mas sinto vontade de finalizar esse texto com um poema.

 

   Hermeto Pascoal tocando flauta na cachoeira, o corpo desce na água, as notas sobem ao céu.

Arnaldo Baptista toca o piano com uma empolgação que remete aos tempos áureos de Daniel Johnston, será apenas coincidência que ambos tinham o rosto parecido quando jovens, ficaram loucos por causa do amor e são amantes da gravação lo-fi apenas tocando em um órgão velho?

  Johan Sebastian Bach é considerado até hoje um dos compositores classicos mais profundos e intensos, mas música clássica nos ouvidos despreparados pode apenas irritar, então, não adianta pagar de erudito.

Entra nesse link:

http://www.youtube.com/watch?v=stCKjZniMsQ

E ouve. Canon em Ré. De Pachelbel. Considerada por muitos a seqüência de acordes mais perfeita do mundo da música. Ah sim, é bom dizer, música classica não se ouve com pressa, nem pra procurar refrão.
Despir-se de qualquer julgamento, apagar a luz, deitar na cama e deixar soar, cada nota do violino, do piano, a progressão sonora, o cello intensificando e deixando o estômago sensível ao vibrato. Ouve. Ouve, que faz bem.

Vale comentar o infinito transcendente de Sigur Ros, a poesia concreta e quase orquestra de Godspeed You! Black Emperor, a voz rouca orgasmática de Eddie Vader nas partes mais intensas de Black, o ritmo pulsante que clama para a dança em Ready for the Floor do Hot Chip, a poesia mística e agreste do Zé Ramalho, o grito intenso e profundo das canções do Pixies, o frio soturno e sistemático da bateria do Joy Divsion e para acabar (contra a vontade), Because. Dos Beatles, todas as vozes em uno, num sussurro suave que corta qualquer campo, colina ou céu, trazendo em poucas frases, uma porção de amores:

” Because the world is round it turns me on

Because the world is round…aaaaaahhhhhh

Because the wind is high it blows my mind

Because the wind is high……aaaaaaaahhhh

Love is old, love is new

Love is all, love is you

Because the sky is blue, it makes me cry

Because the sky is blue…….aaaaaaaahhhh”

 

Então, acho que fica pertinente lembrar daquela famosa frase de Oscar Wilde: -Viver é uma das coisas mais raras do mundo, a maioria das pessoas apenas existe.

Poderíamos quem sabe brincar assim:

“-Ouvir é uma das coisas mais raras do mundo, a maioria das pessoas apenas escuta”.


JULIO

Havia Julio, na quinta série. Ou era sexta?

Julio era diferente do resto.

Percebo agora, em multi-flashbacks.

Mesmo eu naquela época não sabendo dizer o que  era comúm ou diferente e nem me importar com isso, a mente de hoje, vê, lembra-se e distingue.

-Certa vez.

Tenho gravado aqui:

-Certa vez, lembro-me de vê-lo pintando um mapa na aula de geografia;

Havia alguns garotos em volta observando,

Julio pintava o mapa ferozmente e de forma eficaz e bonita.

Lembro-me dele dizer:

“-Os adultos falam para pintar certinho, dentro das linhas e de leve.

-Mas eu gosto de pintar do meu jeito.”

Aquilo na hora fixou em minha mente, foi um pouco forte. Talvez ninguém tenha percebido o que ele falou e talvez nem eu, apenas ficou escondido em minha mente até hoje

Num mergulho mais profundo, arrisco dizer que aquela frase foi como uma faísca de ignição, senti-me por um momento fora do chão, onde tal pensamento avant-garde me expandiu e deu-me um momento de lucidez acima do que eu estava vivenciando até aquele exato segundo. Foram palavras chave para me fazer ver além da camada, além do corpo de criança, como se pudesse espiar tudo que ja vivi até ali nas vidas anteriores e saber o quão longe se pode ir, mas ainda terei que crescer e re-aprender tudo novamente para chegar no estágio evolutivo onde de fato parei na ultima oportunidade.
 Talvez essas palavras tão bem colocadas e profundas do pequeno Julio tenham sido mais firmes para mim do que para ele, ou não, vai ver o garoto estava sabendo de tudo desde sempre. Se não me engano diziam que ele era nômade ou que morava no circo. Só estudou conosco durante um ano, acho que na quinta mesmo. Era sempre lider e inteligente.

Será que hoje é um mochileiro visionário? Será que se entregou as drogas? Será que é um ativista rico? Um fazendeiro pobre?

Onde estarás Julio?
O quanto cresci desde então?


  Acabei de assistir o mini-doc “Por toda a minha vida” do Raul Seixas que foi exibido a alguns anos pela rede Globo (não assista Tv). 

   São várias conclusões e idéias que vem a mente após entender um pouco mais da vida de Raul Seixas. Mas em geral é um degradê intenso. Do brilho puro da genialidade musical repleta de conteúdo para um vórtice obscuro e denso de alcoolismo que o leva para o fim da vida.

   Raul Seixas compôs algumas das maiores obras em termos de energia e profundidade. Canções como “Tente outra vez”, “Metamorfose Ambulante” e “Gitá” são tão, mas tão perfeitas no seu âmbito revolucionário, incrivelmente sincronizadas de forma que tudo que precisava ser dito, ali está. Fora Raul, talvez só Renato Russo atingiu tão em cheio a sociedade popular brasileira com tamanha sinceridade e utilidade. Mas ver o mesmo genial compositor de tais obras se definhar pelo uso compulsivo e doentio de alcool é extremamente triste. Extremamente triste. Isso mostra que além de qualquer conteúdo que você tenha demais em um ponto, você pode estar faltante com outros 90% de você mesmo, de forma que perder o controle não é difícil. É uma pena ele não ter levado a sério sua própria vida quando começou a ver para onde estava indo.


Energia, da mais sincera para você Raul. 


Incorruptibilidade

Retirado do livro: 

“Profilaxia das Manipulações Conscienciais - Mabel Teles”

42. Incorruptibilidade


Definição: A corrupção é o ato ou efeito de corromper, com possível depravação de hábitos e costumes, sendo atitude francamente antagônica ao processo evolutivo.

Sinonímia: 1 - Desonestidade; despudor; depravação; incorreção; ignomínia;
                2 -  Imaturidade; sub-cérebro abdominal.

auto-corrupção é a repetição consciente de atos desonestos e imaturos, prejudiciais à auto-evolução, e com os quais o agente não se sente cômodo, buscando camuflar e reprimir tais ações da lembrança.

Há basicamente, 2 tipos de auto-corrupção:

1 - Manifesta. As autocorrupções declaradas, visíveis e de fácil identificação, assumidas publicamente pela conscin (consciência ainda em corpo, espirito encarnado), não raro, sem pudor. O médico tabagista é exemplo típico dessa situação. Em geral tais autocorrupções são as primeiras a serem expurgadas na reciclagem íntima, por serem incoerentes e desconexas à nova realidade almejada. 

2 - Veladas. As autocorrupções ocultas e dissimuladas, imbricadas em recônditos obscuros do microuniverso consciencial, e, portanto de difícil identificação externa. Por serem constrangedoras e incômodas, a conscin costuma negar para si tais posturas, reprimindo-as.

Mentira. Mentir para si mesmo é o primeiro passo para a instalação de comportamento fraudulento, sendo, em essência mecanismo de autocorrupção.

Automanipulação. O auto-engano nasce da intenção deslocada de camuflar ou fraudar para si a própria realidade, caracterizando quadro de automanipulação anticosmoética. 

Medo. Em geral, implícito neste processo, encontram-se o medo ou aversão de ver-se e tomar contato com as próprias fragilidades e conflitos íntimos, capazes de desiquilibrar emocionalmente a conscin em questão. 

Emocionalismo. O medo de perder o controle ou de perceber-se aquém da falsa imagem idealizada gera instabilidade emocional capaz de potencializar as auto corrupções, levando a conscin a manter-se nos auto-enganos patológicos. 

Acobertamento. nessa situação, as auto-corrupções atuam enquanto mecanismos de acobertamento de realidade que não se quer assumir, aliviando a ansiedade e o estresse decorrentes do auto-enfrentamento franco.

Intencionalidade. Importa pesquisar a existência de ganhos secundários, ou seja benefícios escusos indiretos, quer sejam implícitos ou subliminares.

Objetivos. Em geral, os ganhos secundários abarcam objetivos egoístas e neofóbicos, calcados no subcérebro abdominal onde prevalecem a preservação da auto-imagem e a inércia consciencial (pseudo-equilíbrio).

Conexão. O apego aos ganhos secundários mantém a conscin conectada a “consciexes” (consciência fora do corpo, ja desencarnada, dessomada, espírito) também avessas às renovações intra-conscienciais e, portanto, dispostos a retroalimentar a inércia da conscin auto-corrupta.

Autoengano. O autoengano pode facilitar a manipulação de terceiros, quando minimiza surtos de auto-culpa do manipulador, mantendo-o convenientemente inocente perante os próprios olhos. Além disso, acreditar na própria mentira permitementir com sinceridade, facilitando o engodo dos demais.

Reciclagem. A ruptura deste padrão holopensênico incia-se no momento em que a conscin percebe os efeitos deletérios da própria conduta, chegando, em alguns casos, a buscar ajuda externa por sentir-se incapaz de desemaranhar sozinha a teia por ela própria construída. 


AUTOANÁLISE.


1. Causa. Qual a causa ou força motriz de minhas auto-corrupções?


2. Objetivo. Quais são os objetivos ou ganhos secundários almejados?

3. Incidência.  Com que frequência sucumbo a esta condição? Faço das auto-corrupções um hábito de vida?

4. Agentes. Quais agentes internos ou externos otimizam tal postura?

5. Efeitos. Quais são os efeitos deletérios ou consequências prejudiciais de minhas auto-sabotagens?






eyedwatchthis:

-the future depends on what you do today.

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