Do por que de ouvir música com o coração.
Não, você não é para mim em termos de musicalidade um desânimo, se é que foi essa a palavra que usou. Já faz um tempo que deixei de exigir que as pessoas sejam figurantes de meu raciocínio e sei com clareza que nada posso esperar de ninguém, o que vier no mesmo fluxo, é lucro. É claro que compartilhar sabores é ótimo, mas entender o por que do outro lado é tão interessante quanto.
Então a pergunta ideal para esse momento é: -
-O que te desagrada na música? Sou daquelas crianças que não aceitam por que sim como resposta, sempre acho que a frente de uma opinião, deve existir um motivo. Então gostaria de entender o por que de você sentir irritação com a música, de não se importar com as letras e todo o restante de seu ponto de vista.
Enquanto pensa em sua resposta, tomarei a liberdade para te dizer o que me encanta nesse universo. E para isso precisarei de muitas linhas. Pois falar de um dos maiores amores é se perder em vocabulário, hora por limitação, hora por devaneio. Mas prometo ser preciso e quase científico para deixar claro o por que de mim.
É possível que a música tenha surgido antes da linguagem, junto as batidas tribais veio a melodia, a fogueira forte, o dia da caça, o ritmo frenético. A melodia é idioma universal, você sabe do que a música fala sem que para isso sejam necessárias palavras, e tão variada quanto a raça do ser humano, são suas vertentes melódicas. Veja só no Brasil mesmo, quantos e quantos e quantos estilos e ritmos, agora pense num pequeno país asiático, pense na Russia, pense na India, cada qual com sua profundidade quase infinita de possibilidades musicais.
O que me encanta na música é em especial a perfeição com que esse povo consegue juntar alguns poucos acordes de violão com letras assustadoramente sinceras. E para não sair muito do nosso porto seguro falemos então dessas composições básicas feitas por gente que nem se entendeu direito a ponto de se matar, como o pobre Raulzito. Apesar de alcoólatra, perdido em si e com vários estigmas cronicificados em sua consciência, compôs em uma simplíssima progressão de Lá, Sol e Ré uma canção mantra de gerações, que com poucos minutos pode causar um belo dum banho energético do topo da cabeça até os calcanhares com apenas essas frases:
“Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante"
Calculou?
Se quer um exemplo ainda mais prático pega o Renato Russo, de forma extremamente fácil, quase um Paulo Coelho musical, ele colou frases que todo mundo precisava ouvir em musicas cativantes.
-É precisa amar as pessoas como se não houve o amanhã, pois se você parar pra pensar, na verdade não há. Sou uma gota d’água, sou um grão de areia”
Só com essa frase ele já teve sua missão cumprida.
Mas falando assim faz parecer que a música é banal e medíocre e que não tem nada de profundo nesse tipo de canção. Então falemos por um minuto de uma das músicas mais fodas ja compostas, Construção do mestre Buarque…
Chico fez algo quase incalculável em uma de suas mais famosas canções. Além duma critica social quase devastadora e power, ele faz a canção em versos dodecassílabos, sempre terminando numa palavra proparoxítona. São a base de toda a música, onde ele muda nos versos seguintes apenas a ultima palavra de cada verso. É uma maestria de bom uso do português que você não verá mais na música brasileira infelizmente. E ainda conclui com uma metralhada crítica impagável que só não causa arrepio no leigo cego de amor às realidades paralelas:
”- Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague”
Que tal agora re-ouvir a música com essa noção?
Só isso já seria o suficiente para dizer o por que da música existir. Mas sinto vontade de finalizar esse texto com um poema.
Hermeto Pascoal tocando flauta na cachoeira, o corpo desce na água, as notas sobem ao céu.
Arnaldo Baptista toca o piano com uma empolgação que remete aos tempos áureos de Daniel Johnston, será apenas coincidência que ambos tinham o rosto parecido quando jovens, ficaram loucos por causa do amor e são amantes da gravação lo-fi apenas tocando em um órgão velho?
Johan Sebastian Bach é considerado até hoje um dos compositores classicos mais profundos e intensos, mas música clássica nos ouvidos despreparados pode apenas irritar, então, não adianta pagar de erudito.
Entra nesse link:
http://www.youtube.com/watch?v=stCKjZniMsQ
E ouve. Canon em Ré. De Pachelbel. Considerada por muitos a seqüência de acordes mais perfeita do mundo da música. Ah sim, é bom dizer, música classica não se ouve com pressa, nem pra procurar refrão.
Despir-se de qualquer julgamento, apagar a luz, deitar na cama e deixar soar, cada nota do violino, do piano, a progressão sonora, o cello intensificando e deixando o estômago sensível ao vibrato. Ouve. Ouve, que faz bem.
Vale comentar o infinito transcendente de Sigur Ros, a poesia concreta e quase orquestra de Godspeed You! Black Emperor, a voz rouca orgasmática de Eddie Vader nas partes mais intensas de Black, o ritmo pulsante que clama para a dança em Ready for the Floor do Hot Chip, a poesia mística e agreste do Zé Ramalho, o grito intenso e profundo das canções do Pixies, o frio soturno e sistemático da bateria do Joy Divsion e para acabar (contra a vontade), Because. Dos Beatles, todas as vozes em uno, num sussurro suave que corta qualquer campo, colina ou céu, trazendo em poucas frases, uma porção de amores:
” Because the world is round it turns me on
Because the world is round…aaaaaahhhhhh
Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high……aaaaaaaahhhh
Love is old, love is new
Love is all, love is you
Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue…….aaaaaaaahhhh”
Então, acho que fica pertinente lembrar daquela famosa frase de Oscar Wilde: -Viver é uma das coisas mais raras do mundo, a maioria das pessoas apenas existe.
Poderíamos quem sabe brincar assim:
“-Ouvir é uma das coisas mais raras do mundo, a maioria das pessoas apenas escuta”.









